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Um papo sobre “ter um estilo” para quem está começando na fotografia. // Ou para você que continua se debatendo.

 

Flanando por sites e blogs de fotografia, confesso que às vezes me deparo com informações que são um verdadeiro desserviço à profissão. Chega a dar um desânimo imaginar que a moçada que está iniciando está lendo coisas como:

“É necessário que o fotógrafo tenha e siga um estilo, principalmente aos que desejam se profissionalizar, porque assim ficará fácil dedicar os estudos.” (Além da ideia ser torta o texto ainda está mal escrito)

“todo mundo quer ser reconhecido pela sua fotografia”
(todo mundo quem, carapálida?)

No tema “estilo” é onde encontro alguns delírios dos quais eu me sinto compelido a pontuar algumas coisas para tentar dar uma “baixada na adrenalina” de quem está inquieto com essa busca. Também porque algumas pessoas vêem me procurar para falar a respeito de Pós-Produção/Tratamento de Imagem e eu sinta na primeira conversa que elas estão procurando o próprio estilo — a “assinatura” — no tratamento, nas curvas de cor, nos Presets…e eu acho isso tudo um princípio um tanto equivocado.

Vejo muita gente “perseguindo” um estilo, e até “em crise porque não encontrou o seu”…superestimando o tal do estilo, eu diria. Sem falar que quando a busca é baseada em “quero ser único” sempre soa meio egotrip. (Relaxa, pro bem ou pro mal, você já é único, meu amigo…)

Não tenho a intenção de abrir debate: acho que debate é melhor ao vivo.

Vou apenas tentar colocar alguns pontos da maneira mais sóbria que eu puder, deixando claro que isso aqui não é a verdade absoluta: é apenas a minha visão, é a minha experiência e a minha vivência. Se servir para você, bacana. Enjoy it!

Vamos por partes:

  1. O que significa exatamente ter um estilo? O que define estilo.
  2. “Onde está”, “como eu encontro”de verdade esse estilo?
  3. É mesmo essencial ter um estilo?
     

1) O que define estilo

Segundo os dicionários:

[+] modo pelo qual um indivíduo usa os recursos para expressar, verbalmente ou por escrito, pensamentos, sentimentos ou para fazer declarações, pronunciamentos etc.

ou

[+] maneira de exprimir-se, utilizando palavras, expressões que identificam e caracterizam o feitio de determinados grupos, classes ou profissões.

(No nosso caso usamos imagens.)

Mas tudo isso é muito simplista, são apenas definições. Vamos aprofundar.

Vamos imaginar essa situação:

Exemplo: uma câmera, uma lente, um tipo de filme — se for analógica — durante um ano, produzindo retratos ou minimalismo no centro da cidade, enfim um tema. Essas escolhas tendem a produzir um resultado super consistente. Isso pode ser um projeto temporário, um conceito, uma série, mas ainda não é estilo…embora, passado algum tempo, as pessoas começarão a “reconhecer você” nessas fotografias.

E se você fizer isso durante a vida toda? Então é isso?

Não é tão simples.

2) “Onde e Como eu encontro” esse estilo?

Na escolha do tema? Na escolha da câmera e lentes ? No filme? No software?
Nos seus Curves e Actions de Photoshop? Nos seus Presets?

Eu, nos meus tempos de Flickr, cansei de ver gente dizendo “Não vendo nem compartilho meus Actions e Curves porque eles definem o meu estilo”.

Péra, péra…deixa eu ver se eu entendi: seu estilo está num programa de computador? “seu estilo está numa coisa fora de você”? Entende como a percepção de “estilo” é meio melindrosa?

Em algum momento, como qualquer artista, eu persegui um estilo. Eu tentei construir dentro do meu trabalho o que seria o “meu estilo” com referências, procurando ser consistente nas minhas capturas, na escolha das cores, limitando alguns fatores, etc…e também experimentei a minha dose amarga de sofrimento e de frustração. E por isso, passado algum tempo, posso afirmar que a busca pelo estilo não é necessariamente uma coisa ruim, — é até natural que ela aconteça — mas se descabelar com essa busca é totalmente desnecessário.

Então será que o estilo está na direção de arte? No figurino? Em trabalhar sempre dentro de uma paleta de cores? Na escolha do estilo dos modelos? Na pegada das poses? Na ausência de poses? Será que é tudo isso junto?

De novo, limitar um conjunto de fatores pode sim transparecer um estilo, o trabalho vai ter um “fio condutor”. Mas na minha concepção, estilo não é algo que se atinge exatamente: “estilo é movimento”, é dinâmico, é um conceito mais abstrato, mais coletivo, é uma impressão, uma sensação. E ele deriva justamente do processo: é um subproduto, é uma consequência.

3) Mas é mesmo essencial ter um estilo?

Se pegarmos como referência o processo de artistas bastante conhecidos e aclamados como Van Gogh e Pablo Picasso, vamos perceber que eles produziram peças absolutamente diferentes durante suas trajetórias.

Pablo Picasso, na ordem: “Ciência e Caridade, 1897.” | “O Velho Guitarrista, 1903.” | “Garota em frente ao Espelho, 1932”

Pablo Picasso, na ordem: “Ciência e Caridade, 1897.” | “O Velho Guitarrista, 1903.” | “Garota em frente ao Espelho, 1932”

Resultado de experimentações, influências, autodescobertas, imersão no processo: são 35 anos separando a primeira da terceira obra acima.

Vamos olhar rapidamente a música. Guitarristas como Santana e B.B. King, soam exatamente iguais há anos. Enquanto o The Edge e John Frusciante, por exemplo, mergulham muito mais em experimentações de toda natureza. Gostos à parte, os quatro são grandes artistas e — no final das contas é inegável— todos acabam transparecendo um estilo.

Como sou um curioso, um “xereta de nascência”, até hoje eu tenho experimentado muitas câmeras diferentes, adaptando lentes, experimentando softwares diferentes, processos de revelação, flash, luz natural, Led, Médio Formato, Polaroid, Lomo, Mirrorless…enfim: mergulhei num autodidatismo, brincando com muitas variáveis, o que acabou me trazendo muitos resultados diferentes. Eu simplesmente não consigo parar. Minhas cores mudam o tempo todo, meus temas, meus substratos (filmes/digital), e mudam as minhas lentes e câmeras preferidas. Mas essa tem sido a minha jornada.

Bem cedo eu troquei a busca pelo “meu estilo” por continuar fazendo descobertas, por desenvolver a habilidade de reconhecer e reproduzir estilos diferentes e eu sou feliz assim — sou contratado muitas vezes por essa versatilidade — e há quem seja feliz produzindo o mesmo estilo e sendo contratado por isso. São só escolhas.

Mesmo assim eu já ouvi — quem nunca ouviu a frase — “cara, essa foto é muito você, bati o olho e saquei que era sua”? ou então “Isso é muito Caio Braga”. (Parece um contrassenso, mas eu também acabo sendo contratado pelo meu estilo.) Enquanto alguns notam a minha variação, outros estão reconhecendo meu “estilo” não porque eu repito uma fórmula, mas pela continuidade do trabalho, pelo conjunto da obra.

Na verdade o que as pessoas estão fazendo, inconscientemente, é uma comparação com outros resultados do meu processo, da parte que elas acompanharam da minha trajetória cruzando com a própria bagagem intelectual. O “clique em sí”, isolado, não traz necessariamente toda essa informação do meu estilo.

Então, se posso deixar a minha dica é:
 ‘Alivia um pouco essa “pira” pelo resultado, ou por encontrar logo o seu estilo e foca no durante.’ Principalmente se você está começando. Vivencie.

Relaxa, curta o que você está fazendo. Embarque no aprendizado, e em vez de sofrer, se divirta na busca pelas cores, pelo desfoque, pela “pegada”, pela composição, pelos temas que dialogam com você em cada fase da sua vida.

Baixe a guarda e se entregue.

Vivo falando isso para os amigos: fotografe para você mesmo. Seja consistente se isso te faz feliz, seja uma “metamorfose ambulante” se isso te faz feliz. Se conecte com você e produza o que você gosta que o desgaste emocional desaparece, os trabalhos legais começam a pintar e com o tempo, o estilo — de alguma maneira e em algum grau de relevância — vem à tona.

O resto é bobagem.

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[+] Se esse texto de algum maneira aliviou a pressão, tirou um pouco o “peso da camisa” ou você acha que vai ser legal para conter o “monstro da angústia” no coração de alguém, passe a diante. (risos)